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  20 de julho de 2016

O CATADOR DE PAPELÃO


O CATADOR DE PAPELÃO     

                                                                  José Carlos Buch

É terça feira e o dia amanheceu muito frio, seguramente com a temperatura abaixo de dez graus. Está começando a clarear e no horizonte desponta preguiçosamente o sol com os seus raios luminosos e dourados em pleno céu azul de brigadeiro, alegria dos comandantes de aeronaves de pequenos aviões que assim podem operar visualmente. As andorinhas que emporcalham nossas praças, deixam as árvores onde passaram a noite em revoada e rumam no sentido norte em busca de insetos que vão servir de café da manhã.   Salvador, de barba longa e cabelos brancos emaranhados e  mal cuidados, deitado sobre um feixe de papelão ondulado e enrolado num cobertor surrado,  acabou de acordar sob a aba do  principal viaduto da cidade. A noite foi sofrível, vento cortante e muito frio abaixo de dez graus,  fazendo-o contrair e encolher o frágil corpo para,  só assim conseguir vencer o sono e o cansaço e, finalmente dormir. Ele é mais um,  como tantos outros milhares de belisários, sem teto e sem esperança.   Mas  agora Salvador está  dolorido e ainda sentindo muito frio. Um café bem quente ou mesmo um leite com conhaque cairia bem, pensou! Dinheiro até que não seria o problema, era pouco, mas o possuía o suficiente. Enrolado no velho cobertor, empurrando seu carrinho de mão de pneus tipo de bicicleta, começou a  caminhar até o banheiro público e cuidar da higiene pessoal. Seus passos e seu olhar agora estão concentrados no trânsito. São pouco mais de três quarteirões é verdade, mas alguns motoristas de veículos e outros poucos motoqueiros não costumam respeitar os pobres carrinheiros que coletam papelão no centro da cidade. As mãos estão geladas, mas é preciso conduzir o carrinho até um ponto determinado da Praça da República onde ficará estacionado e para onde as caixas desmontadas de papelão serão levadas. O sol agora se põe um pouco mais alto – um pastel de carne e um copo de café clareou a mente e fez o corpo esquecer as dores do chão frio e da noite mal dormida. A cidade já acordou faz tempo e,  todas as lojas de R$1,00 que avizinham o Bradesco estão repondo mercadorias e recebendo os primeiros clientes. No tradicional Café da esquina os habituais frequentadores da praça estão na segunda xícara. E,  como é bom um cafezinho quente passado na hora  no tradicional coador de pano do octogenário Café da Esquina(existe desde a década de trinta),  nesse frio de trincar os dentes! – Frio intenso, consumo dobrado. – Diz um dos balconistas.  As primeiras caixas vazias de papelão são colocadas em frente às lojas esperando que os catadores as recolham. Salvador não é o mais ágil por conta dos sessenta anos sofridos que o faz aparentar ter mais de setenta, mas é o único que está na Praça naquele momento. O frio provavelmente retardou a chegada dos outros, melhor para ele! O dia começou bem,  quase uma dezena de caixas de papelão ondulado já foi coletada. Até o final do dia espera conseguir mais de uma centena de caixas(é preciso de 7 a 10 caixas vazias para atingir um quilo) e quem sabe totalizar 150 quilos que, a R$0,13 o quilo vai lhe proporcionar R$19,50. Aos poucos a praça vai recebendo mais e mais habituais frequentadores – aposentados, vendedores de bilhetes de loteria, desocupados, críticos do cotidiano,  enfim,  pessoas comuns que fazem da praça um ponto de encontro  para bater papo com os amigos de sempre e, é claro, falar mal do governo. São 10h00 e o Bradesco começou o seu atendimento ao público. Pessoas entram apressadamente e, um ou outro se utiliza dos caixas eletrônicos para sacar dinheiro ou pagar contas. A maioria prefere ainda o atendimento no caixa,  apesar do excelente atendimento prestado pelas  duas lotéricas próximas –  Anízio Loterias ou Rubol – que,  nessa altura já estão com filas razoáveis. Salvador dirige-se até as lojas da Rua Brasil e retorna com inúmeras caixas já desmontadas. Durante o dia repetirá esse trajeto inúmeras vezes indo cada vez mais longe. Agora aproxima-se das 11h00 e a barriga  vazia o faz lembrar que é preciso começar a pensar na “bóia”. Melhor dirigir-se logo ao Restaurante Popular da Prefeitura na Rua Paraíba, onde o prato custa R$1,99 e evitar fila. Se a féria de hoje for boa,  amanhã o almoço será no Restaurante Tempero Manero,  bem ao lado no Club dos 300,  onde o prato popular(para  comer à vontade) custa R$6,25. Tem dia que dá pra almoçar, em outros tem que se contentar e matar a fome com um ou dois salgados e um refrigerante da promoção. Na volta do restaurante recolhe mais e mais caixas – só na Dorelar foram inúmeras. Agora o carrinho está quase cheio, mas até o final da tarde a carga estará completa. O aumento do  número de caixas vazias o faz pensar que a crise parece estar sendo vencida. Outro dia ouviu no velho radinho de pilha Motorádio  que carrega na mochila e  que,  é o seu companheiro inseparável,  que um dos melhores indicadores para medir o comportamento da economia é o consumo de energia elétrica e a produção de caixas de papelão. As horas passam rápido e quando se aproxima do final do dia as lojas começam a fechar as portas. Agora são poucas as caixas disponibilizadas a serem recolhidas. Então é hora de conduzir o carrinho até as proximidades do SESC, se desfazer da carga e contabilizar a féria do dia. No caminho de volta ao “abrigo” do mesmo viaduto, com a féria do dia no bolso de menos de R$20,00,   compra um pão, mortadela e uma sodinha Devito que vai ser o seu jantar. Liga o rádio e em seguida com ar de desapontamento desliga-o. Ainda está na hora da “Voz do Brasil”, que não tolera e não sabe por que o governo insiste em obrigar todas as rádios a reproduzi-la se ninguém quer ouvir notícias que é só interesse do próprio governo. Mastiga o seu lanche calmamente e ajeita as novas caixas de papelão forradas com jornal na nesga sob o viaduto onde,  novamente,  passará a noite. Finalmente  a programação normal do rádio voltou. Deita-se ouvindo o programa “Esporte em Debate” da Rádio Bandeirantes e, finalmente adormece. Amanhã será outro dia, apenas mais um dia na vida sem graça do pobre e belisário Salvador. Apenas mais um dia…                                                           

P.S. O Brasil possuía em 2011, uma capacidade instalada para produção de 4.643 mil de toneladas/ano de papelão ondulado. O consumo médio é de 19 quilos por habitante. Em 2012, 73,3% do volume total de papel ondulado consumido no Brasil foi reciclado. Pesquisa realizada em 766 municípios brasileiros, verificou que o papel e o papelão correspondem em média a 46% do peso dos resíduos na coleta seletiva municipal.

                                                                 advogado tributário                                                                                  www.buchadvocacia.com.br                                                                   buch@buchadvocacia.com.br                            

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