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  1 de outubro de 2020

UMA HISTÓRIA DE INFÂNCIA


  UMA HISTÓRIA DE INFÂNCIA

                                                                                  José Carlos Buch

Ele era o terceiro de uma prole de quatro. Era magro de média estatura próprio de um menino pobre de idade entre doze e quatorze anos. Tinha pouca lembrança do pai, falecido quando ainda era muito pequeno e a mãe estava grávida do irmão caçula. A mãe, negra, de baixa estatura, era só bondade e nunca dispensava um lenço branco na cabeça.  O sustento da casa dependia  dos ganhos dos filhos mais velhos – o primogênito era gari, que na época era também chamado de lixeiro e o outro meia colher(uma espécie de figura intermediária que fica entre o pedreiro e o servente – um auxiliar do pedreiro).  Valter, era o que mais ajudava a mãe em casa. Tirava água do poço, ajudava a arrumar a cozinha lavando a louça, limpava o quintal, saía à cata de lenha nas imediações para alimentar o fogão e, até mesmo buscando gêneros alimentícios ou mistura na venda do sr. Dito,  que ficava não muito distante da casa, marcando na caderneta pra ser pago no começo do mês, como era costume. Frequentou a escola(Grupo Escolar de São Francisco),  onde concluiu o curso primário.  Foi sempre um aluno aplicado, porém, nunca brilhante – ficava no grupo intermediário. Começando a adentrar à puberdade,  buscava um trabalho para se juntar  aos dois irmãos, que eram os mantenedores da casa. Como todos os demais meninos contemporâneos, adorava uma pelada e no trato com a bola era clássico, habilidoso,  leal,  tinha um estilo de jogo e até o andar que lembravam  em muito Pelé, que  nessa época, além do Santos,  já brilhava na seleção brasileira onde com apenas 17 anos,  tinha conquistado o primeiro campeonato mundial,  em 1958, na Suécia. Tinha uma facilidade incrível de dominar a bola e o fazia como poucos. Jogava de cabeça erguida e sabia exatamente buscar os pés do companheiro para fazer a bola chegar até ele. Não reclamava das faltas, dificilmente as praticava e não era de falar muito. Suas palavras se resumiam na habilidade e  intimidade que possuía com a bola de capotão surrada,  com um ou outro gomo querendo se desprender. Era sempre o primeiro a ser escolhido na formação dos times que iriam disputar a pelada. Não havia árbitro e as faltas eram marcadas “no grito”  pelo time do jogador  que a havia sofrido. Não tinha tempo determinado para o jogo acabar – normalmente era do tipo cinco vira e dez acaba! O campo de chão batido consistia de um terreno com inclinação e possuía alguns juás brabos,  como eram conhecidos, que feriam com os seus espinhos os pés dos meninos que não sabiam o que era tênis(sequer existiam na época) ou qualquer outro calçado para a prática das peladas. Assim era a sua vida e de todos nos primeiros anos da década de sessenta. Mulato, começou a apresentar algumas manchas amareladas na pele na altura do pescoço e do rosto. À época, buscava-se  socorro na farmácia, já que o atendimento médico era privilégio de poucos. O farmacêutico passou um elixir e um remédio para amarelão, que nada resolveram. Poucos dias depois, a fraqueza passou a dominar o seu corpo que, antes saudável e atlético,  tornou-se frágil e vulnerável. Então,  a mãe o levou ao Hospital Padre Albino onde, internado no salão(como era conhecida a ala de internação para os que não tinham recursos), foi diagnosticado com nefrite. Apesar de gozar de boa saúde até ficar doente,  aos poucos seu corpo de  quase adolescente viu-se combalido e abalado e,  com o passar dos dias, sem forças para reagir à doença que, avançando progressivamente, acabou pondo fim à sua curta trajetória, após um período de internação. Os deuses do futebol não permitiram que a genialidade de um segundo Pelé surgisse na Vila Sicopan, na periferia de uma cidade até então  não muito conhecida no Estado. O vaticínio que se mostrava exitoso e afortunado, foi atropelado e obliterado por obra e desatino do destino.  A tristeza tomou conta da família e de todos que o conheciam. Seu caixão,  no centro da pequena sala de piso de vermelhão que tantas vezes ele ajudara a  lavar e encerar, produzia profunda consternação no rosto cansado da sua mãe Dona Nenê, com o seu inseparável lenço branco e os olhos inchados,  sentada à cabeceira da esquife. Foi comovente vê-la naquele estado e não tinha como ser diferente!  Os vizinhos, os  irmãos e os amigos,  profundamente tristes e comovidos,  não aceitavam sua partida tão prematura e a interrupção de uma vida que mal  começava a desabrochar. Assim, Valter dos Santos, o amigo e Pelé da Vila Sicopan,  deixou órfãos os que com ele partilharam da sua amizade,  da sua generosidade  e que tiveram o privilégio e a oportunidade de ver a genialidade do seu futebol que encantava até mesmo os adversários. Depois dele e, com o passar do tempo, tantos outros  também se foram – a sua mãe e todos os irmãos, os amigos:  Porunga(Israel), Nandico, Nezão,  Palmeira,  Valtinho Martins, mais recentemente o Piuca,  e alguns mais que fogem à memória. O campo se transformou numa escola pública e a urbanização tomou conta do que antes era um descampado.   E,  por incrível que pareça,  até mesmo a própria identidade da vila se perdeu, pois agora se chama Jardim Bela Vista. Assim, de certa forma, este colunista e quase todos os amigos de infância descobriram que  nasceram num jardim e não sabiam!         

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